Nicolau Tolentino (1740-1811) era natural de Lisboa, estudou Direito, era funcionário público e passou à história da literatura como grande poeta satírico. Não se inclui em nenhuma corrente literária da época; limitava-se a escrever com o seu estilo próprio, em tom de grande humor, os costumes tolos e o comportamento de aparências.
É considerado um dos maiores vultos da literatura do século XVIII e um dos mais notáveis escritores satíricos portugueses.
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Já há muito que andava à procura deste soneto. Além de incrivelmente cómico dá-nos uma ideia muito interessante de como era parte da sociedade portuguesa do século XVIII: os que estavam de alguma forma ligados às rotas comerciais portuguesas estabelecidas e exploradas no pós-descobrimentos (ter pai embarcado significa que o dono da casa estava ausente, num barco, provavelmente como um abastado comerciante das Índias).
O soneto começa logo com um quase desusado costume feminino em Portugal: em caso de desespero, dor, angústia, uma das formas mais claras de o mostrar (para além da berraria) era despentear os cabelos (melena desgrenhada).
A filha aproveita os lucros familiares para se aperaltar, como qualquer outra jovem da sua idade. E ainda que a sua voz adoce o ar, pela resposta compreende-se que não passa de uma jovem fútil e de trato afectado, achando-se uma aristocrata e acima de qualquer problema terreno ou doméstico, como o desaparecimento de um colchão (Sumiu-lhe o colchão, é forte pena; / Olhe não lhe fique a casa arruinada.).

Na época dava-se muita importância à aparência e em especial aos penteados (curioso, mais uma vez os cabelos como espelho de um estado de espírito ou aspiração...), também por conta da influência de outros países europeus, nomeadamente a França. E como quanto mais alta e entufada fosse a cabeleira melhor, a filha não vai de medidas e enfia um colchão na cabeleira. Mais propriamente no toucado (conjunto de adornos que as mulheres usam na cabeça... daí também o nome de toucador, os pequenos móveis de quarto com espelhos e um banquinho para as mulheres se pentearem.)!
Como é obvio, seria difícil o colchão caber no toucado da rapariga. Mas aqui Nicolau Tolentino critica os hábitos de exibicionismo muito usuais em certas camadas sociais da época.
Agora, o que mais me espanta é a extrondosa estrondosa actualidade do soneto em tudo aquilo que ele critica!!!
... aqui nas Flores!!
Pelas primeiras estatísticas aqui da coluna do lado o pessoal gosta mesmo é de receber livros. E tendo em conta as características intrínsecas de um blog (que é escrito para ser lido, até mesmo os casos dos blogs como este), decidi partilhar prosas e poesias dos nossos mui ilustres escritores e poetas de língua portuguesa. Já que não vos posso oferecer livros, pelos menos ofereço-vos páginas soltas.
A primeira já cá canta! Um soneto, para começar.
Já agora se me permitem partilho convosco alguns pedacinhos da minha interpretação dos textos que aqui coloco e os porquês da escolha.
E ainda (sempre alargamos os conhecimentos dos miúdos) algumas notas biográficas sobre o autores.
As always, a vossa opinião, ideia, curiosidade, sabedoria serão sempre bem acolhidas!!!
Chaves na mão, melena desgrenhada,
Batendo o pé na casa, a mãe ordena,
Que o furtado colchão, fofo e de pena,
A filha o ponha ali, ou a criada.
A filha, moça esbelta e aperaltada,
Lhe diz co'a doce voz que o ar serena:
"Sumiu-lhe o colchão, é forte pena;
Olhe não lhe fique a casa arruinada."
"Tu respondes-me assim? Tu zombas disto?
Tu cuidas que por ter pai embarcado,
Já a mãe não tem mãos?" E dizendo isto,
Arremete-lhe à cara e ao penteado;
Eis senão quando (caso nunca visto!)
Sai-lhe o colchão de dentro do toucado.
Nicolau Tolentino, Obras Poéticas