« Aberta a época cultural... | Entrada | A Primavera meteu água!!! »
março 26, 2004
"O colchão dentro do toucado" - QUEM e PORQUÊ?
Nicolau Tolentino (1740-1811) era natural de Lisboa, estudou Direito, era funcionário público e passou à história da literatura como grande poeta satírico. Não se inclui em nenhuma corrente literária da época; limitava-se a escrever com o seu estilo próprio, em tom de grande humor, os costumes tolos e o comportamento de aparências.
É considerado um dos maiores vultos da literatura do século XVIII e um dos mais notáveis escritores satíricos portugueses.
_______________________________
Já há muito que andava à procura deste soneto. Além de incrivelmente cómico dá-nos uma ideia muito interessante de como era parte da sociedade portuguesa do século XVIII: os que estavam de alguma forma ligados às rotas comerciais portuguesas estabelecidas e exploradas no pós-descobrimentos (ter pai embarcado significa que o dono da casa estava ausente, num barco, provavelmente como um abastado comerciante das Índias).
O soneto começa logo com um quase desusado costume feminino em Portugal: em caso de desespero, dor, angústia, uma das formas mais claras de o mostrar (para além da berraria) era despentear os cabelos (melena desgrenhada).
A filha aproveita os lucros familiares para se aperaltar, como qualquer outra jovem da sua idade. E ainda que a sua voz adoce o ar, pela resposta compreende-se que não passa de uma jovem fútil e de trato afectado, achando-se uma aristocrata e acima de qualquer problema terreno ou doméstico, como o desaparecimento de um colchão (Sumiu-lhe o colchão, é forte pena; / Olhe não lhe fique a casa arruinada.).

Na época dava-se muita importância à aparência e em especial aos penteados (curioso, mais uma vez os cabelos como espelho de um estado de espírito ou aspiração...), também por conta da influência de outros países europeus, nomeadamente a França. E como quanto mais alta e entufada fosse a cabeleira melhor, a filha não vai de medidas e enfia um colchão na cabeleira. Mais propriamente no toucado (conjunto de adornos que as mulheres usam na cabeça... daí também o nome de toucador, os pequenos móveis de quarto com espelhos e um banquinho para as mulheres se pentearem.)!
Como é obvio, seria difícil o colchão caber no toucado da rapariga. Mas aqui Nicolau Tolentino critica os hábitos de exibicionismo muito usuais em certas camadas sociais da época.
Agora, o que mais me espanta é a extrondosa estrondosa actualidade do soneto em tudo aquilo que ele critica!!!
Publicado por Giesta às março 26, 2004 04:55 PM
Comentários
Se é actual. A vaidade de certas pessoas não é
um fenómeno do modernismo e então na nossa sociedade está cada vez mais actualizada.
Publicado por: congeminações às março 26, 2004 09:40 PM
Está eXpectacular este texto!
(relê a última frase: mesmo assim não dás mais erros de ortografia do que eu ) :-)))
Publicado por: Rui MCB às março 26, 2004 11:36 PM
Engraçado como este post fez-me viajar aos meus tempos de Liceu, em que o meu professor de Português, amante de Nicolau Tolentino, nos passava as suas paixões,até hoje recordadas com saudade....
Publicado por: valeria às março 28, 2004 07:08 AM
A arte também é natureza. Aconselho uma visita à minha ultima exposição sobre as gravuras rupestres de Foz Côa.
Publicado por: Luis Silva às março 28, 2004 11:56 PM